O momento para uma política que apoie e promova a indústria de semicondutores não podia ser melhor. Desde o início da escassez generalizada de semicondutores, a indústria europeia tem sido afectada, especialmente o sector automóvel, como revelou a IDC no seu estudo "O Impacto da Escassez de Semicondutores na Indústria Europeia: Quando os Impasses Tecnológicos se Transbordam para a Economia em Geral". Para avaliar o impacto disto na perspetiva do mercado, a IDC acaba de publicar o seu novo relatório "World Semiconductor Technology Supply Chain Intelligence", que confirma o desfasamento entre a oferta e a procura de semicondutores, com a procura a crescer 24,4% em 2021 na EMEA, a segunda região de crescimento mais rápido a nível global.
“O fabrico de semicondutores na Europa diminuiu na última década, migrando para os países asiáticos”, explica Rudy Torrijos, gestor de investigação da IDC para as Tecnologias Habilitantes e Semicondutores. “O número de semicondutores por dispositivo aumenta todos os anos, como resultado do processo de transformação digital no ambiente industrial. Se queremos manter a quota da Europa neste mercado, é essencial aumentar o investimento no fabrico de semicondutores nos próximos 10 anos.”.
Os países europeus tiveram a opção de investir na investigação de semicondutores através do Projecto Europeu de Interesse Comum (IPCEI) de 2018, mas poucos aderiram à iniciativa. A Lei Europeia dos Chips vai mais longe e centra-se no cerne do problema: a vulnerabilidade da dependência da cadeia de abastecimento em relação à tecnologia externa.
“A Lei Europeia dos Chips é a primeira política orientada para a oferta, destinada a fortalecer todo o mercado europeu, modificando as rígidas regras de concorrência e anti-subsídios que caracterizam o mercado da UE”, afirma Anielle Guedes, analista sénior de investigação do grupo IDC European Customer Insights & Analysis. Esta lei é uma resposta à actual escassez, mas também está ligada às recentes iniciativas da UE para melhorar a sua soberania digital e tecnológica nas próximas décadas. Aborda também o licenciamento e certificação, as estruturas de investimento, o acesso de PME e empresas de média dimensão a financiamento para inovação, startups e expansão; e, principalmente, instrumentos para antecipar futuros problemas de fornecimento de semicondutores.
Embora o momento seja muito oportuno, os planos para aumentar a produção de microprocessadores na Europa levarão tempo a concretizar-se devido aos prazos e ao capital exigido pelas fundições. Portanto, levará muito tempo até que os resultados sejam vistos. Além disso, uma parte significativa do financiamento provém dos governos e, como tal, está sujeita a rondas de aprovação. Ainda assim, os fornecedores de tecnologia não se podem dar ao luxo de esperar até que os desequilíbrios entre a oferta e a procura sejam resolvidos.
“Considerando a atual escassez de chips e o seu efeito cascata ao longo do tempo, uma abordagem de esperar para ver não é a melhor estratégia para os fornecedores de tecnologia e para os clientes. São necessárias ações mais proativas, como a adoção de cadeias de valor globais abertas e a aceleração da transição para soluções independentes de hardware, e todas elas são urgentes”, continua Andrea Siviero, diretora associada de investigação do grupo European Customer Insights & Analysis da IDC. “
A Europa continua a ser um polo de atração para o desenvolvimento tecnológico devido à sua dimensão de mercado, força de trabalho altamente qualificada e tecnologia avançada, o que permite a expansão da indústria de semicondutores por toda a Europa. A UE possui também uma estrutura de mercado única, graças ao Mercado Comum, que permite a implementação de quaisquer alterações em todo o bloco.”
Por fim, de acordo com Guedes, “Há desafios de concorrência pela frente que a Comissão Europeia deve abordar, promulgando políticas adicionais ou reajustando a Lei dos Chips para manter as indústrias críticas em funcionamento, colmatar as lacunas nacionais e garantir as regras antitruste.” Sem dúvida que a Europa seria mais competitiva no mercado dos microprocessadores se resolvesse a lacuna de investimento em novas fábricas, a falta de profissionais qualificados em design de microprocessadores e se conseguisse transferir as suas capacidades de I&D de ponta para a produção em grande escala.”
