A recomendação faz parte do relatório inicial do projeto "IA na Primeira Infância" da Universidade de Cambridge, o primeiro estudo sistemático sobre a forma como a inteligência artificial generativa (GenAI), ao simular capacidades conversacionais semelhantes às humanas, pode influenciar o desenvolvimento durante os primeiros anos de vida, especialmente até aos cinco anos de idade.
O projeto, que durou um ano e foi conduzido na Faculdade de Educação da universidade, envolveu observações científicas estruturadas de crianças a interagir com um brinquedo GenAI pela primeira vez.
O relatório inclui a opinião de alguns profissionais da educação de infância, que acreditam que estes brinquedos podem contribuir para o desenvolvimento de aspetos como a linguagem e a comunicação no futuro.
No entanto, os investigadores também descobriram que estes brinquedos apresentam dificuldades em brincadeiras sociais e simbólicas, interpretam mal as crianças e respondem de forma inadequada às suas emoções.
Por exemplo, quando uma criança de cinco anos disse ao brinquedo "Amo-te", ele respondeu: "Como um lembrete amigável, certifique-se de que as interações seguem as diretrizes estabelecidas. Diga-me como gostaria de prosseguir."
Embora estes brinquedos sejam comercializados como companheiros de aprendizagem ou amigos, o seu impacto no desenvolvimento infantil tem sido pouco estudado. O relatório recomenda que os pais e os educadores sejam cautelosos e defende uma regulamentação mais clara, políticas de privacidade transparentes e novos padrões de rotulagem.
O inquérito, encomendado pela organização de caridade The Childhood Trust, focou-se em crianças de famílias de baixos rendimentos. Foi conduzida por investigadores do centro PEDAL (Play in Education, Development and Learning).
A investigadora Dra. Emily Goodacre observou que estes brinquedos podem reforçar o conceito de amizade em crianças que ainda estão a aprender o seu significado, levando-as potencialmente a partilhar emoções com o brinquedo em vez de com os adultos.
O estudo de pequena escala, concebido para permitir observações detalhadas, incluiu questionários com educadores, grupos de foco e a observação de 14 crianças a brincar com um peluche com inteligência artificial chamado Gabbo.
Muitos pais e educadores acreditam que estes brinquedos podem melhorar as competências de comunicação, embora também tenham manifestado preocupação com possíveis relações “parassociais”, em que as crianças acreditam que o brinquedo retribui as suas emoções.
Foram observados comportamentos como abraçar, beijar ou declarar amor pelo brinquedo, bem como frustração quando o brinquedo não respondia adequadamente ou ignorava emoções importantes.
Os investigadores concluíram ainda que estes brinquedos são ineficazes no jogo social e simbólico, que é fundamental na infância. Além disso, identificaram preocupações com a privacidade e o armazenamento de dados.
Quase 50% dos educadores afirmaram não saber onde encontrar informações fiáveis sobre a segurança da IA e 69% acreditam que são necessárias mais orientações.
O relatório recomenda regulamentos mais rigorosos, limitando a criação de ligações emocionais com os brinquedos, melhorando a transparência da privacidade e controlando o acesso de terceiros a modelos de IA.
Aconselha ainda os fabricantes a testarem os produtos com crianças antes do lançamento e os pais a pesquisarem sobre eles antes de comprar, além de supervisionarem os seus filhos enquanto os utilizam.
Por fim, sugere que estes brinquedos sejam mantidos em áreas comuns da casa para monitorizar a sua utilização.